sexta-feira, 10 de abril de 2009

Voltou Sarita... o mundo voltou

Ontem saímos a passear daquele jeito grande que já quase tínhamos esquecido e que volta nestes tempos de retorno ao lar e ao comedido. Parece que a crise económica global é um incentivo para fazer uma outra coisa do consumo e consumir mais amizade, mais tempo, mais leitura, mais família e mais sorrisos. Voltamos a um sistema holístico, no que o egocentrismo do gasto plástico se anula num crédito de ruas plenas e palavras ao vento. A comunidade, a festa retornam.
Chegaram os primos, os pais, os filhos e descemos alegres até a casa de Mamã Cármen em homenagem, para que a penúltima geração dos Aldreis (alguns Aldrei já apenas na genealogia do matriarcado Lázara) beijasse a raíz que nos sustenta e tocamos a madeira da janelinha do baixo, onde o tio José Luís dourava a casa e os sonhos com santidades e corava o misticismo dos rostos com fino pincel de escarlatas.
Os átomos desembarcavam no sistema da comunicação antimaterialista e voltava o velho Aristóteles a cantar sobre Leucipo, Demócrito e Gassendi … Ah, a casa de Cármen a dos Santos tão perto do inferno proibido do Cruzeiro do Gaio… As mulheres a fazer mundo… E na Alameda as Marias a galantear César Lombera desde a maravilhosa cor do dinamismo desmandado.
Em meio da festa, do convívio, as meninas velhas sorriam. Eram três agora, como me contavam que três foram em tempo da jovem Sarita viva, as donas da cor e da anarquia. Mas duas eram, às duas em ponto da tarde, as que conheci de pequena, com as que me ameaçaram na rua do Perguntório por se perguntava demasiado, como na Praça do Pão me ameaçavam com o perigo de apanhar aqueles papelinhos mágicos que desciam a voar brancura em meio da noite, e me deixavam sem o pão da abençoada propaganda subversiva… E eu sabia que não podia ter, mas desejava ser tão subversiva e voadora como aquelas mensagens e ler, lamber palavras e liberdades. E vestir todas as cores das Fandinho... As suspeitas da meninez .
Corália (ou Corélia se Corélia é ) e Maruxa passeavam pó de arroz, carmim… A pedra triste daquela Compostela dos anos setenta tingia de bravura e festa errante. Adivinhava-se, manifestava-se a opressão na mesma força da máscara que denunciava. E um guarda-chuvas esgrimia a espada das lupárias, das Fandinho Ricart a tomar a feminidade por bandeira e reclamar o anarquismo possível no amor das donas da agulha e a solidão. Eu ficava a olhar, com medo a dizer alto como me desenhavam vontades e exemplo no subconsciente enquanto alguém puxava por mim: “Segue, são duas loucas… vão-te bater se ficas a olhar, apenas com os estudantes são amáveis”. E seguia, até a casa da avó, onde desfrutava da sua imagem venerada entre mais santos e buxos que quiseram ser santos, e clarinhos de mulher em voz ao vento… A casa de Mamã Cármen… o refúgio…
Quero voltar. Povoar o lar matricial com festa ardente. Acender a lareira. Criar gatos no pátio novamente, cozinhar sob a cambota e expor no comedor todas as imagens do tempo e as estirpes. E também na fotografia das Marias, as Duas em Ponto que foram três como Nemhain, Morrighan e Madb, a triada das deusas calaicas dos tempos escuros, e três são agora em luz, na alameda improvisada do espírito de Sarita que regressou.

2 comentários:

Olive Tree Guitar Ensemble disse...

Hi, it's a very great blog.
I could tell how much efforts you've taken on it.
Keep doing!

Iolanda Aldrei disse...

Thanks, very much... Your words are wind for me, and a feed to keep doing it.
Nice to meet you.